Nova espécie de cobra-cega recebe o nome Siphonops maria, o mais comum do Brasil
Pesquisadores descreveram o anfíbio a partir de exemplares do Rio de Janeiro e dedicaram o nome a uma mulher escravizada que plantou árvores na Floresta da Tijuca

- Pesquisadores descreveram a Siphonops maria, nova espécie de cobra-cega, com exemplares coletados no Rio de Janeiro.
- O nome homenageia uma das 11 pessoas escravizadas que plantaram árvores na Floresta da Tijuca e as mulheres do país.
- Um exemplar de museu coletado em 1902 e catalogado como outra espécie também tem as características da nova cecília.
Pesquisadores descreveram uma nova espécie de cecília, anfíbio conhecido como cobra-cega, e a batizaram de Siphonops maria, em referência ao nome feminino mais comum do Brasil. O estudo saiu na revista Zoological Journal, e os exemplares usados na análise foram coletados no Rio de Janeiro, segundo o Poder360.
A homenagem vai, em primeiro lugar, a uma Maria específica: uma das 11 pessoas escravizadas que, entre 1861 e 1874, fizeram o plantio de mais de 100 mil árvores na Floresta da Tijuca. Hoje o trecho integra o Parque Nacional da Tijuca, considerada a maior floresta urbana do mundo formada por replantio.
Adriano Oliveira Maciel, primeiro autor do trabalho, que atua no Museu Paraense Emílio Goeldi (Belém), afirmou que o nome também funciona como tributo às mulheres do país, que tem mais de 12 milhões de Marias. Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Unicamp, coautor e apoiado pela Fapesp, disse que a escolha busca popularizar um bicho pouco conhecido até entre especialistas.
As cecílias vivem sobretudo debaixo da terra, têm olhos reduzidos e visão limitada, mas contam com estruturas sensoriais na cabeça para perceber o ambiente. O corpo é muito parecido entre as espécies, o que torna difícil diferenciá-las a olho nu. O nome do grupo deriva do latim caecus, que significa cego.
O exemplar de referência, chamado de holótipo, veio de uma coleta feita em 2015 na Serra dos Órgãos, no parque nacional de mesmo nome, e fica guardado no Goeldi. Maciel relata que, de início, o animal foi identificado como Siphonops hardyi, mas o número de anéis do corpo e a dentição eram diferentes do conhecido para essa espécie. A leitura de alguns genes usados para separar espécies confirmou que se tratava de outra linhagem.
Em 2018 e em 2022, Maciel analisou cecílias do mesmo gênero no Museu de História Natural de Paris e no Museu Nacional, no Rio. Ele achou exemplares rotulados como S. hardyi que tinham traços de S. maria, e um deles é de 1902. A tomografia computadorizada de alta resolução também ajudou, ao mostrar detalhes do crânio que a distinguem de espécies próximas.
Imagem: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
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